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A ascensão chegou rápido. Mas antes houve muita luta. Treinos e mais treinos até a vitória. Antonio Carlos Júnior, o “Cara de Sapato”, 24 anos, teve uma trajetória explosiva no MMA profissional – abreviação para Mixed Martial Arts, um tipo de luta que vem conquistando cada vez mais fãs no Brasil.

Antonio Carlos Júnior, o “Cara de Sapato”
Fotos: Máximo Jr
Antonio Carlos Júnior, o “Cara de Sapato”

Profissional desde 2013, Cara de Sapato nasceu em João Pessoa, mas está radicado em Salvador/ BA. Quando criança, era hiperativo e experimentou vários esportes: judô, tae kwon do, futebol, hipismo e natação, até chegar ao jiu-jitsu, esporte onde começou a se destacar. Faixa preta na modalidade e bicampeão mundial na faixa marrom, conquistou diversos títulos brasileiros e sul-americanos. A ascensão dentro do MMA foi rápida. A primeira luta aconteceu em julho de 2013. “Em Salvador, eu e Júnior Cigano começamos a treinar juntos, ele me incentivou quando eu ainda estava no jiu-jitsu, segui essa carreira, até chegar ao MMA. Consegui alguns títulos, fui gostando do treinamento e acabei ficando” , lembra Cara de Sapato.

Com uma ascenSão meteórica (mas, merecida), antonio “Cara de Sapato” surgiu como um dos grandes talentos do cenário do mma. aqui, ele mostra também outras facetas, igualmente bacanas como seu engajamento no terceiro setor. além do mais, o que poderia ser mais profashional que um apelido desse?

Sua história definitivamente mudou quando foi escolhido para participar do programa The Ultimate Fighter – Brasil (TUF), exibido na Rede Globo. O reality show de artes, criado nos Estados Unidos, escolhe lutadores de MMA profissionais ou amadores que competem entre si para ver quem será o The Ultimate Fighter, ganhando um contrato com a UFC para fazer lutas oficiais. (vale lembrar que UFC é a sigla de Ultimate Fighting Championship, uma organização americana de MMA e da qual todos os lutadores querem fazer parte). Cara de Sapato chegou ao TUF Brasil 3 como a primeira escolha do time de Wanderlei Silva. Após nocautear Edgard Magrão e finalizar Marcos Lima, ele conseguiu uma das vagas para a grande final do reality, no qual acabou vencendo por decisão unânime e se tornou campeão dos pesos pesados (até 120 kg). Também assinou um contrato com a UFC. Tudo isso ele conseguiu com menos de um ano como profissional no MMA. Entendeu agora por que sua ascensão foi meteórica? E, em breve, virão mais lutas (e conquistas) por aí.

Enquanto Antonio Cara de Sapato se preparava e posava para a seção de fotos da Profashional, aproveitamos para bater um papo com ele. Conhecer um pouco de sua vida, não ficando apenas restrito à sua rotina como lutador. A seguir, você confere a conversa que tivemos com esse paraibano/ baiano que é bom de briga (mas só no ringue!).

Profashional: “Cara de Sapato” – como surgiu esse apelido tão peculiar?

Antonio Cara de Sapato: Foi na época do jiu-jitsu, um amigo bem gaiato que inventou. Ele dizia que meu queixo parecia um sapato bico fino... Hoje, me acostumei e não me incomoda, mas na época não gostei não (risos).

P.: Em uma época da sua vida, você sofreu de Síndrome de Pânico. Como o esporte o fez superar esse momento?

A. C. S.: O esporte me ajuda muito sempre, mas foi especial naquele momento tão difícil. Um amigo, que já tinha sido meu professor de jiu-jitsu morreu assassinado e eu vi o corpo dele no chão depois disto. Aquilo mexeu muito comigo. Não demorou muito e eu comecei a sentir muita ansiedade, um medo inexplicável, entrei em depressão. Não conseguia sair de casa e muito menos treinar. Mas chegou um momento em que decidi sair disso e fui atrás do tratamento disponível para me curar. E com ajuda da minha família, amigos e o esporte, consegui superar.

P.: Como é o Antonio “Cara de Sapato” longe da rotina de treinos e lutas?

A. C. S.: Quando eu não estou treinando, eu gosto muito de viajar, curtir com a família e amigos, sou muito caseiro, mas gosto muito de juntar as pessoas, brincar e me divertir. Eu também faço outros esportes, até arrisco uma “bolinha”, mas sou meio perna de pau (risos). Quanto à música, sou bem eclético, gosto de todo tipo, mas como um bom paraibano, gosto de um “forrozinho”; sempre que vou a João Pessoa, preciso ir a um forró.

P.: Você pensa em futuramente seguir uma carreira diferente da atual?

A. C. S.: A gente nunca sabe sobre o futuro... Eu gosto muito de teatro, é como se fosse uma terapia para mim. Não descarto ser ator, por exemplo, quem sabe?

P.: E qual é a sua relação com a moda?

A. C. S.: Eu me importo como eu me visto, acho importante. Mas costumo ser bem básico no dia a  dia. Adoro camiseta com gola em V, em cores como preta ou branca. Não vivo sem perfume e relógio, são itens que eu realmente adoro!

P.: Como foi ser “modelo por um dia” para a seção de fotos da capa da Profashional?

A. C. S.: Essa não é minha rotina, mas já tinha feito algumas fotos parecidas. Foi tranquilo fotografar, eu me senti muito bem e à vontade.

P.: Como está sendo o assédio dos fãs?

A. C. S.: Com certeza, participar do The Ultimate Fighter Brasil (TUF) me trouxe muita visibilidade. Muita gente assistiu ao programa e torceu por mim. Às vezes, na rua, algumas pessoas me reconhecem, vêm conversar comigo, pedem para tirar foto. Tudo muito bacana.

P.: O que vem por aí?

A. C. S.: Treinar forte sempre para vencer as próximas lutas. Tudo que me aconteceu foi ótimo e inesquecível, mas devemos sempre pensar para “ali na frente”. Quero ser campeão do UFC!

Encontro especial

Da esquerda para a direita: Rafael Rodrigues, Antonio Cara de Sapato, Sandra Teschner, Dudé Vocalista e Adelino Ozores
Divulgação
Da esquerda para a direita: Rafael Rodrigues, Antonio Cara de Sapato, Sandra Teschner, Dudé Vocalista e Adelino Ozores




No dia das fotos para a Profashional , Antonio “Cara de Sapato” encontrou pessoas muito bacanas, ligadas a um instituto que realiza um trabalho mais especial ainda: o Entre Rodas & Batom . Eliane Lemos Ozores, psicóloga especialista no atendimento da pessoa com deficiência e mestre em distúrbios do desenvolvimento, conta que fundou o IER&B com a missão de transformar vidas e formar líderes humanitárias. “Trazemos em nosso DNA o artigo 6º da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência que reconhece que as mulheres e meninas com deficiência estão sujeitas a múltiplas formas de discriminação e, portanto, é necessário tomar medidas para assegurar às mulheres e meninas com deficiência o pleno e igual exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”, conta. As “Rodas”, no nome, representam o movimento de sair do lugar comum e, o “Batom”, a valorização da mulher e fortalecimento da personalidade e da autoestima.

Junto com Eliane, trabalha Adelino Ozores, seu marido e presidente do Entre Rodas&Batom. Aos 18 anos, ele sofreu um acidente que o deixou tetraplégico, mas não deixou que isso afetasse sua vida de forma negativa. Sempre ativo, ele é bacharel em Direito, jornalista, ativista e empreendedor socioambiental e cultural, acredita que um futuro melhor é possível por meio das cidades sustentáveis e inclusivas que buscam igualdade social, econômica, ambiental, territorial e cultural . “A deficiência é apenas uma questão de olhar” , afirma. Sandra Teschner , publisher da Profashional Editora, é diretora de Relações Institucionais do Instituto Entre Rodas&Batom, assim como seu filho e colunista da revista Profashional, Kai Hrebabetzky , é diretor de Relações Internacionais. “Nós nos propomos a ajudar as pessoas a transformar suas vidas e acreditamos que isto é algo tão complexo e sério devido ao alto grau de importância. Ninguém merece viver à margem da sociedade, sem recursos e muitas vezes renegado à própria sorte.Queremos ampliar o olhar e identificar que as pessoas são muito mais do que as marcas da deficiência. Atuamos como facilitadores para que cada um identifique seus pontos fortes, saibam se respeitar e se fortaleçam para lidar com os desafios que estão ao seu redor”  ressalta Eliane.

Só pensando no bem

Yuri Cariton entre as crianças da Associação Nordeste, que ajuda aos pequenos carentes do bairro Bocado Rio (em Salvador/BA)
Divulgação
Yuri Cariton entre as crianças da Associação Nordeste, que ajuda aos pequenos carentes do bairro Bocado Rio (em Salvador/BA)



Cara de Sapato sabe que nada vem sem esforço, mas nem por isso deixa de reconhecer que também tem muito a agradecer todos que ajudaram. Além do Instituto Entre Rodas&Batom, ele também ajuda outras causas sociais como o Hemorio e o Instituto Nacional do Câncer (Inca) . Com certeza, uma pessoa que o influenciou bastante nessa jornada do bem é Yuri Carlton , mestre de jiu-jitsu e que foi treinador de Cara de Sapato, assim como de Júnior Cigano. “Desde os 14 anos, eu percebi que o Antonio tinha um diferencial para a luta”, conta Yuri. Mas voltando às ações do bem, não podíamos deixar de falar da entidade que Yuri mantém, a Associação Nordeste . “Ela surgiu em 1998, no bairro Boca do Rio (Salvador/BA). Nossa proposta é de desenvolver a arte do jiu-jitsu entre as crianças que não têm condições de pagar um curso regular” , esclarece Yuri. A associação é mantida com recursos próprios e doações. Por exemplo, o diretor financeiro da Profashional, Gabriel Sales , comemorou seus 50 anos com muito estilo em setembro, mas pediu que, em vez de presentes, as pessoas fizessem doações à Associação Nordeste . “O Ministério Público da Bahia também colabora, assim como a fundação José Silveira” , completa Yuri. A associação ajuda muito as crianças a encontrar um rumo e evita que acabem caindo no vício das drogas, por exemplo. Além das atividades esportivas, dentro do projeto, as crianças também têm aulas de dança e teatro. “Aqui nada é de graça. O MP está olhando para a gente e nós estamos olhando para as crianças. A minha intenção é formar atletas, mas vi a necessidade de outras atividades também, como o teatro e a dança. Assim, abraçamos toda a comunidade” , finaliza Yuri.

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