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Apesar da grande possibilidade de expansão no país, esse tipo de mercado ainda é pouco explorado. Entenda por quê

A moda inclusiva no Brasil
Divulgação
A moda inclusiva no Brasil

A  moda deveria ser democrática e acessível a todos, mas na prática não é exatamente isto que acontece. Ainda mais quando falamos de moda inclusiva. Ao contrário do que ocorre em alguns países, onde estilistas investem em coleções específicas para esse tipo de público, o Brasil ainda não abriu os olhos para um perfil de consumidor que está ávido para comprar os mesmos estilos de roupas lançadas a cada estação. Desde que adaptadas com alguns ajustes, como zíperes, imãs, botões ou velcro. “A adaptação é encarada pelas empresas como despesa, ao invés de investimento. Se houvesse maior acessibilidade aos bares, restaurantes ou até mesmo às lojas, as pessoas com deficiência certamente começariam a frequentá-los”, explica o empresário Renato Laurenti, que há 30 anos se tornou tetraplégico em função de um acidente de carro e precisa de peças adaptadas para acoplar, inclusive, a sua sonda. “Ainda não nos encaram como pessoas que consomem, namoram ou têm família. É preciso começar a acreditar nesse mercado”, ressalta. Até 2010, quando foi divulgado o último Censo do IBGE, o Brasil possuía 45,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, o que equivale atualmente a mais de 23,9% da população que poderia fazer parte do mercado de Moda 

Inclusiva, se as indústrias passassem a apostar nesse segmento da mesma forma com que produzem as modas plus size ou evangélica. “Muitos empresários não conhecem o perfil desse público, formado não só por pessoas com deficiência física, como também por aquelas com algum tipo de mobilidade reduzida e idosos (que não estão incluídos nessa estatística). Eles também desconhecem o poder aquisitivo desses grupos e consequentemente não enxergam nesse meio uma oportunidade de negócio com diferencial competitivo”, explica Ana Paula Peguim, coordenadora da área de acessibilidade do Sebrae-SP. É certo que a moda inclusiva ainda é um conceito novo no País, defendido principalmente pela Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo, com o apoio da Vicunha Têxtil, que fornece os tecidos para a realização dos concursos promovidos em prol da criação de looks fashions e adaptáveis, idealizados por jovens estilistas. Mas outras possibilidades de crescimento também poderiam ser consideradas. “As Paraolimpíadas de 2016, por exemplo, poderiam ser encaradas como uma oportunidade de aumentar esse movimento e divulgar essas confecções, desde que os empresários fizessem antes sua lição de casa, em termos de pesquisas, estudos de preços de vendas, planejamento financeiro e de marketing”, sugere Ana Paula, citando, como uma das poucas alternativas atuais para  esse público, a venda de algumas peças adaptáveis pela internet. “A pessoa com deficiência utiliza o e-commerce porque este é o único canal onde ela encontra produtos que lhes permite ter mais autonomia ao se vestir e melhor qualidade de vida, no que diz respeito às limitações com a saúde. Um dos motivos para que essa lacuna ainda exista passa pelo preconceito de que esse público talvez não tenha condições de pagar pelas roupas, que nem sempre são mais baratas do que as convencionais (por serem produzidas em menor escala). Isso leva a um pré-julgamento, em que não se enxerga a pessoa como consumidora, mas apenas como deficiente. Ou seja, se esse olhar mudasse, as empresas também passariam a ver o grande potencial de consumo que há por detrás".

O que existe no mercado brasileiro

Uma prova de que esse setor pode ser lucrativo é a trajetória da loja virtual Lado B Moda Inclusiva, que atua nesse segmento há mais de um ano, e devido ao sucesso de vendas, pretende reduzir seus preços e lançar etiquetas em braile (contendo informações sobre a cor e o tamanho da roupa) para que elas não só passem a fazer parte de suas peças, como também possam ajudar seus consumidores finais, com deficiência visual, a localizar sozinhos suas peças no guarda-roupa. “Anunciamos em primeira mão que nossa técnica nos permitirá até mesmo vender as etiquetas para outras confecções, com preços mais acessíveis e em quantidades menores”, explica Dariene Rodrigues, fisioterapeuta e idealizadora do site, que no ano que vem também pretende lançar lojas físicas. “Nesse caso, a ideia será vender roupas comuns, além das adaptáveis. A nossa primeira loja ainda não tem uma região definida, mas deve funcionar como um showroom, contendo espaço totalmente acessível, do ponto de vista arquitetônico, decorativo e de comunicação visual inclusiva, com variedade em termos de peças e acessórios, além de profissionais capacitados para lidar e atender às particularidades de cada deficiência”, destaca a empresária. A Adaptware, outra empresa virtual de São Paulo, que também oferece roupas acessíveis, segue o mesmo caminho em termos de expansão. “Estamos continuamente buscando parcerias para aumentar nossa distribuição e, com o tempo, expandir nossa linha de produtos para outros públicos, como crianças, adolescentes e pessoas com tipos variados de necessidades, como, por exemplo, as mulheres mastectomisadas (que tiveram as mamas retiradas por conta do câncer)” , finaliza Ana Cristina Ekerman , criadora da marca.

"As Paraolimpíadas de 2016, por exemplo, poderiam ser encaradas como uma oportunidade de aumentar esse movimento e divulgar essas confecções, desde que os empresários fizessem antes sua lição de casa, em termos de pesquisas, estudos de preços de vendas, planejamento financeiro e de marketing."

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